Antero de Quental (1842-1891)

09 Mai 2012, 12:56 [#1]
Com os Mortos

Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos...

E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos...

Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei vivem comigo,

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.

Antero de Quental, in "Sonetos"

Re: Antero de Quental (1842-1891)

10 Mai 2012, 10:50 [#2]
Na Mão de Deus

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despôjo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

Antero de Quental, in "Sonetos"

Re: Antero de Quental (1842-1891)

30 Mai 2012, 15:48 [#4]
Fábio100 Escreveu:Lindo :)
Sem dúvida, amigo; foi dos melhores de sempre. Obrigado. ;)

No Turbilhão

(A Jaime Batalha Reis)

No meu sonho desfilam as visões,
Espectros dos meus próprios pensamentos,
Como um bando levado pelos ventos,
Arrebatado em vastos turbilhões...

N'uma espiral, de estranhas contorsões,
E d'onde saem gritos e lamentos,
Vejo-os passar, em grupos nevoentos,
Distingo-lhes, a espaços, as feições...

— Fantasmas de mim mesmo e da minha alma,
Que me fitais com formidável calma,
Levados na onda turva do escarcéu,

Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes?
Quem sois, visões misérrimas e atrozes?
Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!...

Antero de Quental, in "Sonetos"

Re: Antero de Quental (1842-1891)

30 Mai 2012, 16:26 [#7]
Fábio100 Escreveu:Mais um poema lindo. Não conhecia Antero de Quental... Mas estou a gostar imenso dospoemas que tens postado aqui.
Continua a postar :)
ElClandestino Escreveu:Gostei especialmente desde último, Kakerlakk. :)

Parabéns e continua a trazer a publicar aqui esses belos poemas. ;)
Obrigado aos dois. ;)

Aqui fica mais um:

Oceano Nox

Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o vôo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que idéia gravitais?

Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...

Antero de Quental, in "Sonetos"

Re: Antero de Quental (1842-1891)

12 Jun 2012, 22:24 [#12]
Kakerlakk Escreveu:
h3nras sc Escreveu:Existe à venda o livro?
Existe, amigo.

Tens aqui um exemplo de um link. ;)
Obrigado, amigo.
Devo comprar, para mais tarde recordar.
Até agora tenho andado a ler aqui.
Não conhecia, mas estou a gostar muito.
Eu como, quinta-feira, tenho de apresentar um livro, e como gosto muito de poesia, vou levar uma folha com um poema de Antero de Quental. :)

Re: Antero de Quental (1842-1891)

12 Jun 2012, 22:29 [#13]
h3nras sc Escreveu:
Kakerlakk Escreveu:
h3nras sc Escreveu:Existe à venda o livro?
Existe, amigo.

Tens aqui um exemplo de um link. ;)
Obrigado, amigo.
Devo comprar, para mais tarde recordar.
Até agora tenho andado a ler aqui.
Não conhecia, mas estou a gostar muito.
Eu como, quinta-feira, tenho de apresentar um livro, e como gosto muito de poesia, vou levar uma folha com um poema de Antero de Quental. :)
Não tens de quê e acho que fazes muito bem em comprar um livro dele. ;)

O Citador é um bom sítio para começar, mas há poemas que não estão lá e que são igualmente excelentes. :)

Como açoriano e micaelense que sou, e que era também Antero de Quental, fico cheio de orgulho sempre que alguém aprecia assim tanto a obra dele. ;)

Re: Antero de Quental (1842-1891)

12 Jun 2012, 22:57 [#14]
Kakerlakk Escreveu:Não tens de quê e acho que fazes muito bem em comprar um livro dele. ;)

O Citador é um bom sítio para começar, mas há poemas que não estão lá e que são igualmente excelentes. :)

Como açoriano e micaelense que sou, e que era também Antero de Quental, fico cheio de orgulho sempre que alguém aprecia assim tanto a obra dele. ;)
Já fiz aqui um negócio todo esperto com a minha avó e já me vai comprar o livro.
Eu li agora o 24º, porque tenho estado com preguiça.
Espero acabar de ler os 91 poemas amanhã(missão impossível :mrgreen: ).
Desconhecia mesmo este poeta, e estou espantado com o que ele escreveu.
Até ao momento, gostei muito do poema "No Turbilhão".
Vá, baba-te, estou mesmo a adorar a escrita deste Senhor! :D

Re: Antero de Quental (1842-1891)

16 Ago 2012, 01:36 [#15]
h3nras sc Escreveu:
Kakerlakk Escreveu:Não tens de quê e acho que fazes muito bem em comprar um livro dele. ;)

O Citador é um bom sítio para começar, mas há poemas que não estão lá e que são igualmente excelentes. :)

Como açoriano e micaelense que sou, e que era também Antero de Quental, fico cheio de orgulho sempre que alguém aprecia assim tanto a obra dele. ;)
Já fiz aqui um negócio todo esperto com a minha avó e já me vai comprar o livro.
Eu li agora o 24º, porque tenho estado com preguiça.
Espero acabar de ler os 91 poemas amanhã(missão impossível :mrgreen: ).
Desconhecia mesmo este poeta, e estou espantado com o que ele escreveu.
Até ao momento, gostei muito do poema "No Turbilhão".
Vá, baba-te, estou mesmo a adorar a escrita deste Senhor! :D
Não me admiro mesmo nada. ;)

Aqui fica mais um, para reavivar o tópico:

Evolução

Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
O, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo...

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

Antero de Quental, in "Sonetos"
cron