Adorei esta perspectiva do Luís Freitas Lobo sobre o treinador Português e sobre o nosso campeonato
"O treinador num “puzzle de Mordillos”
O futebol português tem realidades tão difusas e bipolares que não se assemelha a mais nenhum do cenário europeu
Guillerme Mordillo é um cartoonista argentino. Criou muitas telas disparatadas e engraçadas onde coexistem pacificamente, num cenário ao mesmo tempo super-confuso e harmonioso, imensos bonecos baixotes com nariz de batata nas mais diferentes atitudes aparentemente inconciliáveis.
A realidade competitiva portuguesa tem uma idiossincrasia que não se assemelha a mais nenhuma na Europa (quer nos ambientes, quer no perfil das equipas, ambos factores quase bi-polares). Em mais lado nenhum existe a Mata Real ou um estádio cheio de vento como no Rio Ave ou, de repente, outro com 300 pessoas e uma equipa que parece desligada, mas que depois surge noutro estádio com 60 mil pessoas a jogar com grande intensidade. Depois surge um estádio moderno sem ninguém e a seguir um pequeno cheio de nevoeiro e bombos, como a Choupana e uma equipa lá dentro a querer jogar como um grande. No mesmo dia, o clássico entre grandes e um duelo do fundo da tabela numa piscina. Ou seja, de campo para campo parece que entramos em países diferentes. Combinar todas estas peças é como fazer um puzzle de mordillos. Exige conhecimento profundo.
O treinador português nasceu e cresceu neste meio. O treinador estrangeiro vê resumos e jogos dos grandes lá fora. Penso nisto vendo o debate eleitoral sportinguista falar da opção por um treinador estrangeiro como se esse facto define-se, por si só, alguma coisa ou qualidade insofismável. A competência e razões de escolha passariam antes pela filosofia de jogo e trabalho, conhecimento multifacetado do futebol, liderança, perfil humano de relacionamento, etc. A pedra filosofal do treinador estrangeiro é uma mera ilusão.
O treinador português é hoje dos mais evoluídos da Europa em termos estratégicos no jogo, montar sistema e …contra-sistema. Veja-se como equipas ditas pequenas chegam aos grandes e montam uma táctica que rouba os espaços e depois quase põe uma venda na bola. A seguir, a mesma equipa, joga em casa e até voa na transição ofensiva e contra-ataque. Depois, a nível de treino (metodologia e condições) já todos trabalham com igual qualidade.
Houve tempo em que era diferente. O treinador estrangeiro chegava a Portugal e revolucionava logo no aeroporto. Viu-se Eriksson nos anos 80. Agora já não é possível. Muitas vezes é engolido e ainda nem tirou as malas do carrinho.
Rui Vitória e Jardim emergiram como as revelações da época. O perigo é a fogueira de competências em que muitos caíram nos últimos anos. Jardim era visto como o futuro, mas a tese de que saiu quando não ganhava há cinco jogos já se expandiu. Não acredito, mas até faria sentido vendo como muitos foram queimados (ou glorificados) nessa ideia resultadista em vez de avaliados pela capacidade.
O futebol português tem muitos problemas, mas nenhum (na essência) está na qualidade dos seus treinadores. Pelo contrário, foi o factor que mais evoluiu nos últimos 20/30 anos. Tudo o resto, parou no tempo ou piorou. Mas estamos todos obrigados a viver juntos. Como num puzzle de Mordillos."
Legendary Striker... is back again
