Adorei esta análise que encontrei no FCPorto 24.
FC Porto 0 - 0 Gil Vicente ( Crónica e apreciações individuais)
Imagine que é treinador de uma equipa de menor capacidade. Essa sua equipa vai enfrentar o bicampeão nacional FC Porto em sua casa, o único estádio onde o seu adversário perdeu na época passada. Você sabe que a equipa que enfrenta, apesar de todo o seu poderio, insiste em iniciar os jogos sem um extremo e com sobrepovoamento do corredor central, mas sem ter um jogador responsável pela criação de jogo.
O que faz?
A solução é simples. Primeiro, defesa fechadinha e confiança na fiabilidade do seu guarda-redes. Segundo, um meio campo o mais coeso possível e sempre em cima do meio campo portista. Como não há um criativo assumido no lado contrário, o meio campo portista não abafará o seu. Toda a saída de bola dos médios recuados do FC Porto tem que ser implacavelmente atacada. O meio campo portista recua, o seu respira e a construção ofensiva do seu adversário torna-se previsível. Vão tentar lateralizar, mas só têm um extremo. Se bombearem, a sua defesa coesa está de frente para o lance e o meio campo adversário tem ainda muito terreno para vencer para tentar ganhar a segunda bola.
Finalmente, o terceiro ingrediente. Extremos bem abertos e um avançado centro com a mesma gana dos extremos para correr a todas as bolas. Com isso, fixa a defesa portista, sobretudo, os laterais que são aqueles que podem criar desequilíbrios nas transições. Se o seu avançado centro não for um craque, não há problema. Poderá sair do jogo zero, ou terá que viver do erro do adversário. Mas caramba, você nem uma convocatória completa consegue fazer por limitação de plantel e do outro lado está o bicampeão nacional que até tem jogadores a treinar à parte.
Será que resulta?
Por si só, não. Falta jogar com vento a favor.
Vento?!
Não se inquiete! A palavra vento é uma alegoria.
Imagine que faz tudo certinho, mas que do outro lado está uma raposa. É bem conhecido o carácter matreiro desse canídeo. Por melhor que você faça, arranja sempre forma de furar a rede e entrar no seu galinheiro. Não há galo ou galinha que viva para contar como foi.
Mas não, é o seu dia de sorte. No outro banco, está alguém com um traço mais para o teimoso e não para o matreiro. Um traço típico daquelas orelhas que ninguém queria usar no antigo ensino primário.
O seu oponente, campeão nacional no ano anterior, esbanjou uma qualificação da fase de grupos da Champions à custa de uma teoria táctica enigmática. Sem quê nem para quê, retirava de campo o seu 6, num acto tresloucado de vertigem ofensiva. Como se o seu 6, elo de ligação fundamental no futebol moderno, fosse a raiz da incapacidade ofensiva da equipa. Tomou andadura com o caminho que tomou para a Liga Europa às custas de uma equipa de uma ilha meio Grega e meio Turca. Pudera!
Tomar andadura tomou, mas pouco durou. Com galões nos ombros e medalhas ao peito, decide dar uma nova oportunidade a essa decisão asina quando a equipa precisa de atacar. Mas vamos começar pelo princípio. O seu oponente quer arrancar bem neste campeonato. Mostrar a marca do Dragão desde o princípio. Tem contra ele a paródia das selecções que o obriga a trabalhar quase com a equipa B para o arranque da liga. Você não, o plantel é mais curto e limitado, mas os seus jogadores não saem de ao pé de si durante a semana toda. Ainda assim, o seu colega é amigo. Dois internacionais brasileiros, que até não estão a ser sujeitos a cobiças alheias, vão para o banco. No lugar de um deles joga um jogador adaptado.
Diga lá se o vento não está favor!?!...
Mas pode ainda aventar mais. Basta confiar nos bons ofícios de Duarte Gomes. Não é nada de novo. Digamos que é beneficiado por um microclima arbitral muito complacente sempre que o FC Porto visita o seu campo.
Posto o exercício imaginativo, em que qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência, vamos percorrer o jogo.
Vítor Pereira faz duas alterações no onze inicial. Moutinho entra no lugar de Defour e Hulk no de Atsu. Com Danilo e Alex Sandro de volta dos jogos Olímpicos, a adaptação de Mangala volta a ser aposta. Rotinas, ao que dizem! Quanto ao resto, a mesma solução ofensiva de sempre: James a falso extremo e falso 10, Lucho a 10, por vezes, e a 8, no essencial.
O FC Porto entra a mandar no jogo. O Gil Vicente resguarda-se e prepara o seu jogo de contenção. A ilusão do domínio portista toma conta do jogo. Na verdade, o Gil Vicente consegue bloquear a capacidade criadora do FC Porto. Só Hulk, com os seus momentos de explosão, é que consegue fazer tremer o Gil Vicente. Com um meio campo incapaz de sufocar o meio campo do Gil Vicente, é o meio campo Gilista que ocupa os espaços e vai retraindo a saída de bola do FC Porto. Nos flancos, do lado do FC Porto só dava Hulk. A equipa Gilista apostava em dois “ciclistas” para bloquearem a ousadia dos laterais portistas.
A burla estatística ao intervalo é clara. Posse de bola esmagadora, mas bem longe da área Gilista. Muitos mais remates, mas fora da área e tão perigosos como os quase inexistentes por parte do Gil Vicente. Números balofos!
A segunda parte, começa igual. Cópia fiel e autenticada da primeira. Jackson e Hulk ainda tentam provar que há algo de novo, mas não. É, então, que entra o dedo de treinador. O relógio não para de contar o tempo e já não há mais tempo ou espaço para as rotinas defensivas com Mangala. Vítor Pereira corrige o erro de alinhamento inicial e faz entrar Alex Sandro. Se esta substituição acertou no cravo, a substituição que veio anexada nem na ferradura acertou, mas sim no próprio burro. A saída de Fernando e a entrada de Kléber mata a primeira substituição e dá uma oportunidade real ao Gil Vicente de tirar um ponto deste jogo.
O que o FC Porto precisava era de criatividade na zona central e largura na frente de ataque. O que esta substituição provoca é maior afunilamento na frente de ataque do FC Porto e o distanciamento definitivo da linha média portista dos avançados. Afunila e parte a equipa!!! Se até aqui Jackson já sofrera com a incapacidade da linha média chegar até si e dos extremos ganharam vantagem perante o lateral, então agora, a sua forçada provação iria intensificar-se. Como troco, ganha a companhia de Kléber. Mais vale sofrer acompanhado que sozinho, é isso?! Lucho faz duplo pivot (a nova moda! Dantes o trio de oitos, este ano, é o duplo pivot!) com Moutinho e ficam em terra de ninguém. Nem chegam à frente, nem aniquilam as ténues investidas de um Gil Vicente sem o poder ofensivo da época passada.
O Gil Vicente aproveita a oportunidade e cresce no jogo. Nem três minutos decorrem das substituições de Vítor Pereira e já ameaçam a baliza de Hélton.
O FC Porto cria mais perigo. Joga mais com o coração que com a razão. O relógio não pára. O futebol portista vive de repelões de Hulk e dos raros momentos de James. Cabe a Hulk o remate mais perigoso, aos 70 minutos. Vítor Pereira joga a sua última cartada. Com Danilo no banco, recorre a Atsu e retira James. A partir daqui, o FC Porto só encosta o Gil Vicente às cordas nas bolas paradas. Canto atrás de canto e a bola teima em não entrar. Até que, a dois minutos dos 90, Hulk descobre Jackson que cabeceia com intuito, mas Adriano retira o golo ao Colombiano.
Castigo duro, mas merecido.
Até quando vamos jogar só com um extremo?
Até quando não vamos jogar com o melhor 10 do campeonato?
Perdeu-se uma oportunidade de já abrir distâncias. Castigo merecido para quem deixa dois internacionais brasileiros no banco e vai à luta com adaptações. Maldita chiclete!